Capítulo 107



Sentei-me na cama da Melody, a admirar a caixinha de música. A melodia doce e suave mergulhou-me num mar de memórias. Lembrei-me da Melody, em bebé, a mexer os pezinhos pequenos ao som da melodia da caixa, e a sorrir com os dentinhos brancos ainda a nascer. Relembrei os dias em que íamos andar de bicicleta. Ela, desajeitada, caía e chorava ao ver o sangue escorrer do joelho esfolado… voltávamos para casa e ficávamos horas perdidas a brincar com as suas imensas bonecas. Ela obrigava-me a escolher a roupa e depois zangava-me por eu não saber combiná-la. E antes de dormir, tinha de lhe contar uma história que ela nunca chegava a ouvir por completo… adormecia a meio, com os meus dedos grandes entre a sua mãozinha fina e delicada.


No dia seguinte, quando chegava da escola, exibia-se, cantando o alfabeto e explicando-me a tabuada, como se eu não soubesse. Relembrei o Natal dos seus 6 anos, em que me mascarei de pai Natal e tive o (des)agrado de a ver chorar, horrorizada, gritando pelo pai. Fora difícil para mim ignorar os sonhos e planos que eu tinha para quando a Melody nascesse. Dediquei-me de corpo e alma á minha filha. Queria poder-lhe dar tudo o que eu nunca tive acesso, justificar a ausência da mãe… e só recentemente, apercebi-me que a minha filha não precisava de nada disso. Bastava eu mostrar-lhe todo o amor que sempre senti por ela, para a ver feliz. Sem dar conta, encostei ao coração a caixinha de música, e soltei uma lágrima que foi cair delicadamente em cima do vestido de tule da bailarina. Quase jurei que uma nódoa no vestido dela desapareceu, como que por magia…
Foi então que me lembrei do dia em que vi a caixa de música pela primeira vez. Vi-a nas piores circunstâncias…

“Estava em casa, a cuidar da Melody, ainda bebé. Ela estava deitada no seu berço, a sorrir docemente para mim. Brincava com um dos seus peluches preferidos, enquanto eu pegava noutro peluche e fazia-o falar, como se fosse real. E nesse momento, o Arthur tocou à campainha. Sem esperar aquela visita, dirigi-me à porta e abri-a.
- Arthur… - nem o cumprimentei. A nossa discussão tivera ocorrido havia relativamente pouco tempo.
- Vim visitar a Melody – disse ele, retribuindo-me a antipatia.
- Pensei que tinha ficado bem claro que nunca mais te quero aqui… na minha casa!
- Esta casa não é só tua! Também é da minha irmã, por isso tenho o direito de ver a minha sobrinha!


Disse-lhe para entrar, contrariado, reparando no saco que ele trazia na mão.
- Olá, Mel! – cumprimentou, enquanto acariciava a sua carinha – Trago-te um presente!
Ao ouvir aquelas palavras, a Melody começou a sorrir com os seus dois dentinhos à frente.
O Arthur tirou do seu saco aquela caixa de música. Tal e qual como aparentava ser dezassete anos depois. Deu corda à mesma e abriu-a. A melodia começou a tilintar, fazendo a Melody baloiçar ligeiramente no seu berço. Deixou-a aberta ao lado da bebé e dirigiu-se a mim:
- George, eu sei que já falámos sobre o assunto, mas não consigo parar de pensar do que será da Melody quando souber que lhe escondeste uma verdade tão inevitável como a morte da minha irmã…
- Já não há nada para falar a esse respeito, Arthur! Pensei que o assunto tinha ficado encerrado! No que depender de mim, ela não vai saber de nada!


- Se a minha irmã estivesse aqui, iria ficar com um grande desgosto do seu marido!
Inspirei fundo e levantei o tom da minha voz:
- TU NÃO SABES NADA! NADA, OUVISTE? Tu não sabes o que a Melody acha ou deixa de achar! Tu não sabes o que ela quis do nosso amor, dias antes de morrer! Não sabes!
- Então explica-me, George!
- Não! Não vou perder tempo.
Dirigi-me ao berço da Melody e tirei a caixa de música, fechando-a e metendo-a dentro do saco de plástico, outra vez.
- O que estás a fazer? – perguntou o Arthur.
- Não quero nada teu! A minha filha não precisa de doações!
- Mas isso é para ela! É um presente!
- Não quero nada teu na minha casa, Arthur! Mete isso na tua cabeça! Agora sai da minha casa! SAI!”


Voltei a mim quando ouvi a voz da Melody a chamar por mim, sentada muito próxima…

***

Fiquei perplexa por ver o pai no meu quarto, a olhar fixamente para a caixa de música, observando a bailarina a rodopiar incansavelmente.
- Pai?
- Ah! Olá filha! – respondeu ele, fechando a caixa rapidamente.
Sentei-me ao seu lado e peguei na caixa.
- É linda, não é?
- É… é… bem, vou fazer o jantar.
- Sim, eu tenho trabalhos de casa que não quero deixar para as últimas.


Deu-me um beijo na testa e dirigiu-se lentamente para a porta do quarto. Foi então que me lembrei de lhe perguntar uma coisa que já queria perguntar há muito tempo. Uma coisa que me deixava angustiada e que me pesava como um pedregulho no meu coração. Fui impulsionada pela nostalgia que senti ainda mais, quando olhei para a foto da mãe.
- Pai!
- Diz filha! – respondeu, enquanto se virava para trás.
- Bem, hum… queria perguntar-te uma coisa! – levantei-me da cama e aproximei-me dele.
- Força! Não percebo nada disso que estás a dar na escola, já quase não me lembro mas no que te puder ajudar…
- As recordações – interrompi – que reténs desta casa… boas e más… não te incomodam?
- O quê? Não estou a perceber – o seu sorriso ia desaparecendo progressivamente.
- Tu sentes-te bem aqui em casa, sabendo que aqui já se passaram montes de coisas?
- Claro… é o nosso lar, filha! É o nosso lar. Bem, vou fazer o jantar.


Achei estranha a reacção do pai àquela pergunta. Pareceu que quisera fugir do assunto, sem querer desenvolver muita conversa a esse respeito. O que eu sabia, era que não me sentia bem. Apesar da maior parte das recordações serem boas, não conseguia evitar o ímpeto das recordações más que me vinham sempre à cabeça, o que começava a inquietar-me.


3 Response to "Capítulo 107"

  • Desi Says:

    LINDO! AMAZING! BRUTALINHO!
    A sério, está mais que perfeito! E olha que li sem imagens, a página carregou mal e li tudo sem imagens: Consegui ver tudo na perfeição, mais uma prova do excelente escritor que és!
    COntinua assim! o.o


  • mmoedinhas Says:

    E depois o Arthur é que tem de ir pedir desculpa ao pai da mel??? QUER DIZER? depois de todas as respostas afiadas que ele lhe deu, quem chega todo arrependido é o arthur... SINCERAMENTE!
    Fogo, estes ultimos capitulos têm sido nostalgicos comoo tudo!

    MAS EU ADORO! :3


  • diogo Says:

    Eu adorei todo o ponta de vista do pai até pk cada pessoa tem o seu e isso faz que com outros os julgem por nao intenderem mas tu fizes-te tudo muito bem e espero para ler mais desta historia!
    Continua pk eu estou aqui para o que der e vier! :D


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