Capítulo 84

* * *

Os olhos de Miss Béatriss ficaram inundados de lágrimas, enquanto olhava para mim de alto a baixo, comentando o quanto eu estava crescida. Não levou muito tempo até eu chorar também, abraçando-a ternamente. Naquele momento, esqueci-me de todas as recordações más que ela me proporcionou, porque, apesar dessas más recordações, ela acompanhou-me durante dez anos, e, sem ela, podia estar na rua a morrer à fome, ao frio. Estava-lhe muito agradecida por isso.
Encaminhou-me até à cozinha, onde o cheiro de gizado surpresa se intensificava ainda mais, o que não evitou a onda de tristeza que me percorreu o coração naquele momento. Estava a reviver todas as sensações e momentos passados naquele Orfanato.
- Senta-te! – Pediu – Queres um chá?
- Sim, se faz favor – Respondi, sentando-me numa das cadeiras de madeira envelhecida.
Miss Béatrice levou o bule de chá á mesa, juntamente com duas chávenas de porcelana. Sentou-se.
- Nem acredito… Tu cresceste imenso, e não só na estatura. Na vida! Tu és famosa!


- Já não… - Neguei, dando um pequeno gole de chá.
- Desculpa, não percebi muito bem.
- Já não sou famosa, Miss Béatrice…
- Por favor… trata-me por… Béatrice…
- Desculpe, é o hábito – disse, sorrindo – Como eu ia a dizer… já não sou famosa.
- Porquê?
- Não ouviu as notícias? Descobriram que eu sou órfã. Não levou muito tempo até essa notícia percorrer o mundo inteiro. Agora, sempre que passo na rua, não consigo passar de despercebida, sem que algum ex-fã me aponte com o dedo, boquiaberto, com um jornal na mão, no qual está, bem legível, na primeira página, o título da grande reportagem sobre a “Farsa de Sarah Mello”.


- Lamento muito, Sarah. Não sabia que tinhas problemas em assumir que eras órfã…
- Não tenho! Mas, pensei que pudesse arranjar-me problemas e, portanto, eu encobri isto.
Béatrice empoleirou-me ligeiramente na mesa, com os olhos a brilharem:
- E… vais deixar de seguir o teu sonho… só porque descobriram o teu segredo…?
- Mas qual sonho? A minha vida sempre foi tão fácil, sem luta pelos sonhos. Bastava estalar os dedos e eu tinha tudo… ou quase tudo. Os meus pais não apareciam à minha frente sempre que estalava os dedos.


- Tens saudades deles?
- Muitas… É indescritível…
- Mas, Sarah… - Prosseguiu – Tu não vais deixar de fazer o que gostas só por terem descoberto o teu segredo… não faz sentido! Por que não continuas a tua carreira?
- Porque não quero, Béatrice. Eu aprendi muito com isto… mesmo muito. E cheguei à conclusão que fui uma fútil e mimada. Eu mereço isto. Estou a pagar por tudo o que fiz…
Béatrice olhou para mim, com um olhar que reflectia um misto de tristeza e pena. Nunca a tinha visto assim.
- Então… o que vais fazer agora?
- Seguir em frente… dentro dos possíveis. Vou recompensar todos pela pessoa horrível que fui… Ah, já me esquecia – Tirei da minha mala, um cheque – Isto é o mínimo que posso fazer por este orfanato… por si!


- Não! Eu não posso aceitar isto!
- Aceite! Aceite! Eu sei que está a precisar… que estas crianças estão a precisar… eu sei disso, porque eu também já fui uma delas. Aceite!
Com isto, dei-lhe um suave beijo na testa, enquanto não conseguia conter as lágrimas de felicidade que me submergiam por completo.

* * *

- E pronto… chegámos! – Disse o meu pai, com uma enorme satisfação, enquanto estacionava o carro na garagem.
Mal saí do carro, olhei para o exterior da casa. Um suave arrepio percorreu-me o corpo, enquanto um sorriso se desenhou na minha face. Sentia-me excepcionalmente bem naquele momento.


O pai convidou-me a entrar, enquanto carregava as minhas malas, e o arrepio intensificou-se ainda mais, juntamente com uma enorme onda de recordações que me inundou a mente.
Quando entrei no meu quarto, foi como se não tivesse lá estado durante três meses. Parecia-me diferente, comparado com o quarto que tinha na casa da avó. Não era por ser mais espaçoso, mais iluminado ou com um cheiro menos intenso a naftalina. Era o facto de lá ter dormido nos últimos dezoito anos.


Mesmo sem querer, tinha gravado naquele quarto todas as minhas memórias e recordações. Tanto as tristes, como as felizes... Havia um percurso que eu deixara nesse quarto. Um percurso que agora relembrava lentamente, enquanto abria as malas que o meu pai trouxera. Era bom voltar a casa. Tinha adorado estar com a minha avó, sentir o cheiro das tartes de maçã e dos biscoitos caseiros que ela fazia para o pequeno-almoço, ou das sobremesas cheias de chantilly que ia lamber ao frigorífico às escondidas dela. Mas a minha casa, o meu lar e a minha vida, era com o meu pai.


Enquanto arrumava as malas, não pude deixar de reparar nas fotos rasgadas ao meio que tinha em cima da secretária. De um lado da foto estava eu, do outro a Cassandra. Lembrei-me do dia em que ela me viu, e me veio abraçar emocionada. E se ela estivesse disposta a fazer as pazes? Será que a nossa amizade regressaria ao que era? Perdida nestes pensamentos, peguei na moldura da mãe, que guardara com todo o cuidado e pousei-a na mesa-de-cabeceira, onde sempre estivera. Senti mais um arrepio. Agora seria diferente. Quando acordasse, não veria a imagem de uma mãe ausente e desinteressada. Ia ver a imagem de uma mãe que faleceu para me deixar nascer. Que deu a sua vida pela minha. Que me amava incondicionalmente. E, antes de ir ter com o meu pai à sala, suspirei de alegria e visualizei mentalmente a imagem do meu quarto. Agora, finalmente, tudo estava bem.


5 Response to "Capítulo 84"

  • Inês Says:

    Que lindo! *.*

    A atitude da Sarah foi mesmo solidária! Por ter oferecido o cheque ao orfanato... :D

    A sério.. adorei a parte dela, está mesmo humilde, lol


    Não sei mais o que hei-de escrever... porque como sempre, ADOREI!!!! :D


  • mmoedinhas Says:

    OMG Foi hoje... Foi hoje que o meu queixo bateu no chão...

    A SARAH! *aponta o dedo para o ecrã a tremer e de boca aberta* A SARAH! *constantemente repetindo-se para si propria que isto so pode ser um sonho até que* CAPOT *som de baque do corpo da matilde a cair no chão*

    *acordou...* E a Melody!!!!!!! *capot duplo*

    Bem, não há palavras para descrever este capítulo! Esta historia já me irrita porque eu tenho sempre palavras OUVISTE TUDY!!!!!!!???????kkkkk pronto parei com a baboseira...

    AIiiii as minhas unhas já nao sao o que eram!


  • mmoedinhas Says:

    AH e so queria deixar uma coisa...

    Agora que olho para a Sarah (principalmente 4º foto a contar de cima) já não a vejo como rapariguinha futil! Não só a sua personalidade, mas também a forma da sua expressao!

    Não sei como fizeste para tirar esta foto maravilhosa, só que agora cada vez que olho para a Sarah, penso dela de uma forma diferente...


  • Desi Says:

    Oh pá, amei tantoooooooo!
    Quero mais! Muito muito muito maiss!
    Este episódio foi tão lindo, tão nostálgico... Amei a parte da Sarah! *.*
    PERFEITO!


  • Diogo Says:

    opá! tão tão tipo tipo perfeito! ta maravilhoso e a quem disser o contrario leva com a enxada! AMEI TANTO, como disse no forum tenho orgunlho de ter amigos que escrevam tão bem e que me levam a lutar ainda mais pela amizade! amei


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