Capítulo 96

- Por favor! Alguém chame uma ambulância! Acudam!
A voz do meu pai parecia estar distante, como se uma parede de vidro espesso nos separasse rigorosamente. Ainda não me atrevera a abrir os olhos…

***

O Michael veio ter comigo, ofegante, parecendo que correra centenas de quilómetros.
- Jake! Jake!
- Que foi, men?
- Tens de ir lá fora!
- Porquê, o que se passa?
- A Melody!

***

A dor tinha cessado, mas o meu corpo continuava dormente como se não me pertencesse, o que me preocupou ainda mais.
Abri os olhos, e rapidamente desejei nunca os ter aberto.


Vi o meu pai, agachado, com o seu braço a apoiar a minha cabeça. Vi a Cassie, com as lágrimas a escorrerem-lhe pelos olhos e com as suas mãos trémulas, a tentar reanimar-me. Vi o meu corpo, estendido no chão, apenas com a cabeça ao colo do meu pai. O meu corpo… desfalecido, no meio do chão.


- Melody! Melody! Por favor! MELODY!
- Ai meu Deus! Amiga! Melody!
O pai levou o seu ouvido ao meu peito, para tentar ouvir o pulsar do meu coração. Mas isso apenas serviu para o pôr mais afligido.
- Não está a respirar! ACUDAM! CHAMEM UMA AMBULÂNCIA!
E nesse momento, a imagem que via ia-se afastando cada vez mais de mim, como se algo me estivesse a puxar. Tudo se estava a desmoronar, desfazendo-se em farrapos brancos, como lençóis fluidos. Toda aquela imagem dissipou-se, assim como o meu corpo, que brilhava no meio daqueles lençóis.


Parecia que estava a ser sugada para um buraco sem fim. O coração quase que me vinha à boca, de tanta ansiedade que estava a sentir naquele momento.
Agora a cidade que me rodeava tinha desaparecido. Eu tinha ido parar a um deserto esbranquiçado, sem nada nem ninguém. A voz não saía dos meus ouvidos, atormentando-me constantemente.

“Melody… finalmente…”

Fiquei imóvel durante alguns instantes, na esperança que algo forme se erguesse à minha frente, e me fizesse perceber que não estava ali sozinha, mas não aconteceu nada. Estava completamente sozinha.


Caminhei para um sentido inserto, pois aquilo não passava de um deserto de uma cor homogénea: branca. Fui acelerando o meu passo gradualmente, na esperança de encontrar uma saída daquela planície infinita.
Não ouvia nada… nem um ligeiro som, o mais minúsculo dos sons… nada. Apenas a minha respiração, que saía dos meus pulmões com dificuldade.
- Olá?
A minha voz trémula dissipou-se no meio daquele meio informe. Não havia céu, vento… até duvidava do próprio chão que pisava.
Até que, a dada altura, no meio daquela imensidão, surgiu um arbusto, com flores coloridas e brilhantes na sua copa verdejante, que brilhavam impressionantemente.


Aproximei-me deste, e toquei nos seus ramos suaves, e assim que lhe toquei, moveu-se ligeiramente, como se sentisse o meu tacto. A luz brilhante que as flores daquele arbusto emanavam fizeram-me sentir uma pontada de felicidade no meu coração. A minha roupa foi-se transformando lentamente num vestido macio e sedoso, branco como todo aquele espaço. A luz do arbusto tinha-me transformado a roupa naquele lindo vestido comprido.


Nesse momento, encantada com aquela pura magia que me envolvera, a voz voltou a zumbir, mas daquela vez, não apenas nos meus ouvidos…
“Melody…”
Olhei para trás, e uma silhueta apareceu no meio de uma espécie de fumo denso. Aquela silhueta não me permitia distinguir a pessoa que ia aparecendo, mas à medida que esta caminhava na minha direcção, eu ia reparando que a pessoa que se aproximava de mim, era a minha mãe.


Usava um vestido igual ao que tinha aparecido no meu corpo, os seus cabelos pretos como o ébano estavam ainda mais lindos e flutuantes, os seus olhos verdes-água, tal e qual os meus, transpareciam uma felicidade pura e divina, tal como o seu sorriso encantador e incansável.
- Melody… oh… Melody, minha filha! – Disse, satisfeita e emocionada, com um grande sorriso na cara.
- M… mãe?! – O meu corpo estremecia naquele momento.
Limitou-se a sorrir, em resposta. Também não pude evitar um sorriso motivado pela emoção que saía de mim naquele momento, ao saber que estava diante da minha mãe.
- Tu estás tão linda, Melody! Tão crescida! Oh, Melody…


- Mãe, és mesmo tu…?
Soltou uma gargalhada doce e suave.
- É claro que sim, minha querida.
A emoção que sentia fez-me esquecer, por instantes, o que me acontecera há, talvez, minutos atrás. Quando me consciencializei das circunstâncias que me levaram àquele lugar, perguntei, preocupada:
- Eu… eu… morri?
A minha mãe voltou a sorrir, não tirando os seus olhos de mim.
- Eu morri? – Repeti.


- Não, filha, não morreste. Aliás… estás mais viva do que nunca… no meu coração…
- Então… onde estou?
- Estás num lugar informe, onde tudo se pode transformar naquilo que mais desejas. Podes olhar por quem mais amas, vigiar quem mais receias, apreciar o que sentes falta… sentir o que já não sentias há muito tempo…


Nunca ouvira a sua voz tão próxima de mim como estava a ouvir naquele momento. Sentia uma vontade enorme de a abraçar e acariciar, mas nem me dei ao trabalho de experimentar… na verdade, ela não passava de mais uma sombra.
- Por que estou aqui? – Perguntei, humildemente.
Ao dizer aquelas palavras, a expressão da mãe mudou por completo. O seu sorriso desapareceu rapidamente, e os seus olhos deixaram de brilhar tanto.


- Muitas razões me levaram a chamar-te… Acho que já estás preparada…
- Não estou a perceber…
- Tudo o que viveste estes últimos meses, preparou-te para isto, mas… eu não sou capaz…
- O quê, mãe…!
- Se tu achavas que o pior já tinha passado, se já tinhas visto tudo sobre o teu passado e sobre os segredos que se ocultaram estes anos todos, estavas muito enganada. As visões, as sombras que se ergueram diante ti, são apenas uma amostra do que tu podes vir a ver no futuro!
- O quê?
- Tu não fazes ideia do poço de recordações em que vives… Melody.


A sua voz, que já não se mostrava doce, mas sim preocupada e trémula, começou a assustar-me imenso e mal eu sabia o que ela ainda me tinha para dizer...


Capítulo 95

***

“Este estádio enche-se progressivamente, não apenas por adeptos e fãs, mas também pelos mais prestigiados treinadores das mais célebres equipas de Rugby, todos eles, convergidos num só jogo, o jogo que será decisivo para estas duas equipas! Lamas e Corças! Quem ganhará a taça? Quem será o campeão deste quarto torneio? Estamos cada vez mais perto da hora do jogo decisivo, que nos dará a resposta!”


***

O ambiente que envolvia o estádio era contagiante. Á medida que íamos subindo as escadas, numa tentativa desesperada de encontrar os nossos lugares, fui-me apercebendo do quão fiéis eram os adeptos dos "Lamas". Uns usavam bonés azuis e vermelhos, outros vestiam t-shirts com LAMAS escrito em letras garrafais e alguns exibiam bandeirolas e cartazes. Havia pessoas com grandes caixas de cartão cheias de pipocas, crianças com chupa-chupas gigantes e jovens a falarem alto.


A alegria pairava no ar e a felicidade patente naqueles rostos contagiou-me com rapidez. Um rapaz ruivo ofereceu-me um crachá dos “Lamas”, que eu pus ao peito com orgulho, e uma rapariga de cerca de quinze anos mostrou-me, feliz, o cartaz que fizera, com a cara do Jake estampada e um grande coração. Fingi que gostara da ideia, mas na verdade o que mais me apetecia era rasgar aquele cartaz em milhentos pedacinhos, e prendê-los nos caracóis desalinhados da rapariga.


Encontramos os nossos lugares mais rápido do que eu esperava. E fiquei realmente agradada. Os lugares eram fantásticos: não eram muito em baixo, nem muito em cima, conseguindo uma vista óptima para o campo. Perto de nós existia um holofote, que projectava luz para o campo dando-nos um campo de visão espectacular. E para completar o cenário, as colunas estavam suficientemente longe para evitar que ficássemos surdos, e perto o suficiente para ouvirmos e percebermos com clareza o que o locutor dizia.
Só me restava fazer uma coisa. Apoiar o Jake com todas as minhas forças.

***

Aquela tarde estava dourada como o ouro, típica do Outono, que se ia transformando gradualmente no Inverno.


Dirigi-me aos portões forjados do cemitério. Estava deserto e silencioso. Já não ia lá há bastante tempo, e quase não me lembrava de como era arrepiante estar naquele lugar tão solitário.
Havia neblina por todo lado, com apenas alguns centímetros visíveis acima do chão.
Dirigi-me à terceira lápide a contar da entrada, e ajoelhei-me diante dela, tocando na pedra húmida manchada de líquenes. Uma lágrima escorreu-me do meu olho, depois outra e mais outra…


As saudades que sentia da minha mãe eram incontroláveis, queria, mais do que nunca, que ela estivesse ali, ao meu lado, para me dar apoio e consolar naquele momento tão difícil da minha vida.




Adoro-te… mãe…

***

Lamas: 1
Corças: 0
Apenas nos primeiros vinte minutos do jogo, os Lamas mostraram a sua força e garra neste torneio, mas será que essa força vai durar?

***

A minha cabeça ardia, embora estivesse frio e sentia o corpo dormente e sem forças, já para não falar das dores constantes e agudas que tinha na cabeça. Por isso, o que não me faltou foi razões para ir lá fora apanhar ar, durante o intervalo.


O meu pai e a Cassie insistiram em vir comigo, pois começaram a ficar preocupados, o que eu não queria.
- Eu estou bem, já disse! Dói-me a cabeça…
- Desde ontem à noite! – Exclamou o pai.
- A sério senhor George? – Perguntou a Cassie.
- Sim, ontem à noite até foi mais cedo para a cama! Tu não estás bem, Melody!


“Melody… vem…”

- O quê? – Indaguei.
- Disse que…
- Não! Esta voz…
- Que voz? – Perguntou, agudamente, a Cassie.


- Não paro de a ouvir…

“Melody…”

De repente, a voz suave e meiga que se infiltrava nos meus ouvidos, transformou-se num grito sofredor e tortuoso, assim como a dor se intensificou, deixando-me sem forças, quase nulas.
Gemi, sofredoramente, enquanto me agachava, fechando os olhos com força, com as mãos nas fontes da cabeça.
- HAAA! MELODY! – Gritou a Cassie, muito preocupada, juntamente com o pai.


A dor era incessável e os meus gemidos abafavam os gritos da Cassie e a respiração acelerada do meu pai, ambos à minha volta.
Aquela dor quase que me fazia implorar o alívio. Não conseguia abrir os olhos, parecia que o sol me feria a vista. Não conseguia pôr-me de pé, pois, tinha medo que as minhas pernas fraquejassem, ou que simplesmente se desfizessem de tão fracas que estavam. E a voz não cessava:

“MELODY! MELODY! MEEEEELOODY!”

Uma vez agressiva, outra afligida e até fraca. Não conseguia arranjar uma maneira de me livrar daquela tortura, o meu pai e a Cassie à minha volta.

De repente, quando pensava que nada podia piorar, deixei de sentir o meu próprio corpo. Deixei de ouvir o que me diziam ou tentavam dizer. Deixei de ver uma imagem nítida do meu pai e da Cassie, mas sim um espectro de luz branca a inundar-me os olhos.
O chão parecia que se desfazia debaixo dos meus pés, assim como o estádio, a estrada, e as casas à volta. Tudo se parecia desmoronar à minha volta, como se tudo estivesse a ser sugado para o interior da terra.

Fechei os olhos com todas as minhas forças… e quando os abri, nada voltou a ser o mesmo…


Capítulo 94

Bifes de vaca e batatas fritas. Um jantar super calórico, para celebrar a felicidade que irradiava do meu coração. A satisfação que sentia naquela noite era indescritível. Sentia-me especialmente bem e com vontade de celebrar a vida.
- Esmeraste-te hoje, filha - Disse o meu pai, servindo-se sofregamente.
- São só bifes e batatas! - Exclamei, rindo-me com prazer.


- Mesmo assim… sei que a minha filha cozinha qualquer coisa, especialmente bem!
- Obrigada. Huh, pai.
- Diz, filha.
- Sabes que eu e a Cassie… já fizemos as pazes?
- Ah! Bem me parecia que ela não tinha estado cá em casa por acaso! Fico feliz por ti, tu mereces - Felicitou-me, sorrindo carinhosamente.
- É... finalmente sinto que estou a organizar a minha vida! Sabes, por momentos pensei que já não podia sofrer mais, que não conseguia sair daquele buraco negro, acho que agora estou a tomar outro rumo!


- E agora o que tens a fazer é esquecer as águas passadas!
Sorri, mas de repente o meu sorriso transformou-se num forçado, provocado por uma dor aguda que me atacava as fontes da cabeça. Levei um copo com água à boca e tentei respirar fundo, mas a dor não passava por muitos goles que digerisse. Engasguei-me e devo ter ficado vermelha, porque o meu pai apercebeu-se e, preocupado, tentou ajudar-me:
- Estás bem, Mel?
- Estou - Murmurei, tentando recompor-me – engasguei-me… apenas.


“Eu vejo-te… Melody…”


Mais uma vez, uma voz suave embrenhou-se nos meus ouvidos, provocando-me um arrepio doloroso, que me vez mexer rapidamente.
- Estás esquisita!
- Eu estou bem… cansada, mas estou bem.
- Não devias estudar tanto! Isso dá-te cabo dos miolos. Olha, no meu tempo…


- Importas-te que vá lá para cima? – Interrompi – Estou um pouco cansada e quero dormir cedo.
- Não, mas... tens a certeza que estás bem?
Assenti com a cabeça e saí em passo apressado da cozinha. Não queria que o meu pai ficasse ainda mais preocupado do que já aparentava estar. E não, eu não estava nada bem.

* * *

“Este é o dia que será marcante para toda a cidade de Fort Sim! Mais de cem mil adeptos convergem, neste momento, neste estádio, para apoiar a sua equipa: Lamas ou Corças? Iremos ver, neste quarto Torneio Inter-Cidades, quem será o Campeão da Taça! Fiquem ligados para mais informações, para este dia histórico!”


* * *


- OK, pessoal… Este, provavelmente, será o dia mais importante para a nossa equipa. Porquê, perguntam vocês? Porque é neste Torneio que iremos fazer História no Rugby! Façam o que for preciso para ganhar! Mantenham a bola na vossa posse! Sejam fortes! Nós vamos ganhar isto!


Os gritos graves de “Hurra” ecoaram pelo balneário adentro. O jogo estava prestes a começar. Tínhamos tudo o que era preciso para ganhar, e eu estava mais determinado do que nunca, para não deixar a minha equipa mal.


Força, Lamas!

* * *

- Que achas que leve? Esta camisola, ou esta? – A Cassie estava extremamente indecisa, o que começava a irritar-me.


- Ficam-te as duas bem, leva qualquer uma!
- Meninas, então? Despachem-se! – Apressou-nos o pai lá de baixo - Senão não tenho lugar para estacionar o carro!
- Já vamos pai! Mais dez minutos!
- Mulheres…
- Eu ouvi isso! – Exclamei.
Estava um tanto ou quanto nervosa naquele momento, e não pelo Torneio. Sentia uma agonia tremenda a apertar-me o peito que mal conseguia estar bem-disposta para aquele dia tão especial.
- Continuo a achar que estás mal encarada… - disse a Cassie, embora eu não tivesse ouvido nada – E agora lunática! Hei! Melody! ACORDA!


- Diz?
- “Diz”? Estou aqui a ter uma crise de adolescente e tudo dizes “diz”?


- Desculpa… “Crise de Adolescente”? Cassie despacha-te, eu vou estar lá em baixo antes que o meu pai entre em combustão.
- Vai, vai…
As expectativas para aquele dia, em relação ao jogo do Jake, eram altíssimas, mas em relação a mim mesma, eram demasiado baixas. Sentia que algo ia acontecer, algo que, definitivamente, não iria ser bom. Mas não queria ser vencida pelo pessimismo que estava a tomar conta do meu coração naquele dia, e queria aproveitar aquele dia, e esquecer todos os meus problemas.
Passados cinco minutos, a Cassie desceu, exactamente igual ao que estava anteriormente:
- Pronto, decidi não levar nada… vou com esta, ninguém vai notar.
- Óptimo, podemos ir embora? – Inquiriu o pai, impaciente para ir assistir ao torneio.
- Desculpem, fi-los esperar! – Lamentou a Cassie.
- Não faz mal. Anda.

* * *


* * *

Fiquei a olhar para o horizonte, como se uma força magnética me atraísse para a imensidão do céu.
- Então? Entra! – Apressou-me o meu pai.

Capítulo 93

- HAAAAA!
O grito estridente e agudo que a Cassie soltou, ecoou por toda a casa. Estava aterrorizada enquanto olhava com os olhos esbugalhados para o espelho.
- Melody! MELODY! Põe-me como estava! JÁ! HAAAAA!
- Tem calma, Cassie! Ainda nem acabei!
- Já foi suficiente para eu me olhar ao espelho e ver que pareço um autêntico veado com este cabelo!
As minhas gargalhadas faziam com que a aflição da Cassie se dissipasse por completo, pois também se começava a rir.
Tentei diversos penteados que a minha avó me ensinou. Uns mais robustos e outros mais simples. Nenhum punha a Cassie aliviada.
- Meninas, vocês estão bem? – Perguntou o meu pai, ofegante por subir as escadas a correr.


- Pai?! Já estás em casa? – Perguntei, incrédula – Ah, e estamos bem, sim!
- Ainda bem! Sim, saí mais cedo do trabalho! E vocês? Não andam a faltar à escola, pois não?
- Claro que não – negou a Cassie – O nosso professor está com amigdalites. Coitadinho…
- Coitadinho, uma ova! – Exclamei, bem-disposta.
- Melody!
- Desculpa!
- Bem, eu deixo-vos sozinhas… não estava à espera da tua vistia, Cassandra! Está tudo bem?


- Sim, senhor George! Obrigada.
- Bem, se quiserem eu preparo alguma coisa para vocês comerem…
- Não é preciso, pai…


- Ah, então ainda bem… vou adiantar uma papelada que tenho em atraso. Nada de gritarias!
Com isto, saiu do quarto e foi para a cozinha trabalhar. Estranhei o meu pai não dizer nada em relação à minha reconciliação com a Cassie. Talvez não quisesse importunar, ou simplesmente, com aquela sua cabeça airada, esqueceu-se.
- Bem, vamos ver se isto resulta…
- O quê?
- Já vais ver…
- Prefiro não ver! És uma péssima cabeleireira!

* * *

Fui para o parque, tentar abstrair-me da discussão que tinha tido com os meus pais. Estava extremamente magoada com tudo aquilo que me tinham dito, o que provava ainda mais que não gostavam de mim quase, ou mesmo, nada. Não conseguia suportar o facto de que nem da minha “Família” recebia algum apoio.


Sentei-me num banco envelhecido do parque, observando as outras crianças a brincarem, alegres. Não me cansava de contemplar os seus sorrisos iluminados pela juvenilidade e pela boa-disposição que tinham ao saberem que, ao chegarem a casa, tinham os seus pais, de braços abertos, à sua espera, prontos para os receberem.
Embora isso me magoasse, não conseguia evitar o ímpeto de memórias que me afluíram rapidamente à cabeça. As experiências, más ou boas, que vivi naquele orfanato, eram inesquecíveis. Não conseguia retirar da minha cabeça aquelas tardes soalheiras, que vinha da escola e passava pelo carro dos gelados e comprava, para mim e para os meus amigos do orfanato, que já tratava por irmãos.


Lembro-me que o orfanato atravessou uma fase terrivelmente má, económica e emocionalmente. Miss Béatrice não sabia o que fazer para nos sustentar, e ainda por cima uma das minhas melhores amigas, Susan Bagshot, tinha sido atropelada há poucos dias. Apesar de ela ser mais velha, partilhávamos gostos, musicais e culturais, que não conseguíamos partilhar com mais nenhuma pessoa.
Quando voltei a mim mesma vi que tinha passado, nada mais, nada menos, do que uma hora, a pairar nos meus pensamentos.

* * *

- Melody, eu não sei se isto é boa ideia. Não me sinto bem assim… Sinto-me… simples.
- Ai, esse espírito de sacrifício tão extinto. Vais ver que te habituas! Agora sai da casa de banho.
A persistência em permanecer na casa de banho, diante do espelho, era incansável, chegando até a pensar em tirá-la à força de lá. Quando me preparava para isso, finalmente, a Cassandra Brown, saiu da casa de banho. Estava absolutamente linda, natural… parecia a Cassie verdadeira!



- Estás linda, Cassie!
- Oh, obrigada, Mel. Quer dizer… eu é que te devia agradecer… estou assim graças a ti! Obrigada!
- Não tens que agradecer!
Deu-me um forte e amigável abraço agradecendo-me pela enésima vez.
- Obrigada por me perdoares! A sério! Fico tão feliz por saber que já somos amigas, outra vez! Nem imaginas o quão me sinto bem!
- Eu também me sinto muito bem! Finalmente está tudo a voltar ao normal…
Nesse momento, uma dor torturante e aguda penetrou na minha cabeça, como se esta estivesse a ser apunhalada.


- Mel? Estás bem, amiga?
- E-estou, Cassie… estou bem… - não conseguia disfarçar a minha expressão de sofrimento, aquela dor era de tal forma forte, que quase me forçava a implorar por alívio. Mal me conseguia mexer, nem abrir os olhos.
- Não pareces nada bem! Estás tão pálida! Que horror! Eu vou chamar o teu pai!


- Não! Não! – Neguei – Não é preciso… já estou melhor…
- Tens a certeza?
- Sim…
- Absoluta?
- SIM! Bolas… Desculpa…
- Não faz mal… Bem, vamos andando para as aulas… já estamos atrasadas… era tão bom que todos os nossos professores tivessem amigdalites… já te imaginaste sem testes até às férias de natal? – Soltou um riso histérico.


- Cassie! Esqueci-me de te dizer uma coisa… Esses teus… gritos histéricos, têm de acabar!
- Ah, certo… desculpa!



Eu e o Jake fomos para o campo de Rugby. Ele fez-me prometer que assistia aos seus treinos e de seguida dava-me os bilhetes para o torneio que estava cada vez mais próximo.
Depois do treino, veio ter comigo, ofegante.
- Desculpa a demora… isto atrasou um pouco – lamentou, gentilmente.
- Não faz mal… - disse, dando-lhe um beijo – Preparado para o Torneio?
- Sempre. Acho que estamos treinados o suficiente. Não vamos treinar mais até ao dia do torneio. Acho que o pessoal está a precisar de descansar.
- Fazes muito bem… assim é que é, um bom Capitão! – Exclamei, sorrindo.


Fez um pequeno intervalo para dar um duradouro gole de água, e depois, olhando para mim intrigado, indagou:
- Isso é tudo felicidade de estar comigo?!
- Não… quer dizer… estou contente por estar aqui contigo mas… eu e a Cassie fizemos as pazes!
- A sério?
- Sim! Estou super satisfeita… e ainda por cima mudei-lhe aquele visual pomposo e transformei-a na verdadeira Cassie!
Soltou um riso genuíno, dizendo:
- Fico feliz por te ver assim… já não era sem tempo que vocês faziam as pazes!
- É… ah, Jake… finalmente a minha vida está a tomar outro rumo… a sério, por momentos pensei que não conseguia sair daquela depressão horrível.


- E eu fico muito feliz por ti! – Exclamou, beijando-me – Toma… - deu-me três bilhetes para o Torneio Inter-Cidades – os bilhetes.
- Obrigada! Acho que já sei quem vou levar!
- Quem?
- Depois de amanhã vês! – Disse, alegremente.
- Bem… vou-me vestir. Não saias daqui!
Assenti, e sentei-me numa das bancadas do campo. Guardei os bilhetes na mala e encolhi-me pelo arrepio que me atravessou as entranhas naquele momento.
Respirei fundo e mexi suavemente no colar que tinha ao pescoço, o da minha mãe. Consegui sentir a sua textura suave e fria nos meus dedos. Por momentos, deu-me uma intensa vontade de chorar, não por tristeza, mas sim por alegria e alívio. A minha mãe estava imiscuída no meu coração, para sempre.


…Melody…Melody…

De novo, uma voz feminina apunhalou-me os ouvidos, causando-me outro arrepio intenso, fazendo-me paralisar por completo.
Levantei-me, com as pernas trémulas, e, com um tremendo esforço, fui ter com o Jake, que me estava a chamar, do outro lado do campo.