Capítulo 74

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Entrei na Biblioteca, e notei logo o rigoroso silêncio que lá pairava. Dirigi-me à senhora Charlotte, a bibliotecária, para requisitar um livro, mas devido à sua ausência, tive de esperar um pouco, nos imensos corredores de estantes apinhadas de livros.
Se fechasse os olhos, arriscar-me-ia a dizer que estava sozinha, dentro de uma sala à prova de som. Se calhar estava mesmo. Aquele sítio era totalmente diferente do resto da escola. Nada me perturbava, e aquele calmante silêncio deixava-me relaxada.
Foi nesse momento, que ouvi um repentino estrondo, provavelmente de livros. Dirigi-me para o local de onde tinha ouvido o estrondo, e reparei que tinha sido o Dave.


- Melody! Estavas…. aí. Não te tinha visto. – Soluçou, apanhando a sua pilha de livros tombada.
- Não te incomodes… eu ajudo-te. – Agachei-me e ajudei-o.
Conseguia ouvir a sua respiração acelerada quando me aproximei. Estava extremamente nervoso.
- Obrigado…
- De nada… então… não te tenho visto. Está tudo bem?
Acenou afirmativa e tremulamente com a cabeça, enquanto olhava para vários recantos do tecto humedecido da biblioteca.
Sorri-lhe.
- Vim cá passar algum tempo… Ainda não posso ir para casa… Esquece lá… é uma longa história, que tu não deves estar disposto a ouvir, claro.


O Dave continuava a segurar firmemente os seus milhentos livros e a olhar, ora para mim, ora para o tecto. Pela primeira vez sentia-me nervosa em frente a ele. Não sabia como o iria confrontar, sem que ele ficasse perturbado. Devia avançar lentamente, e não o pressionar demasiado. Sabia que era sensível, e muito reservado.
Quando se preparava para entrar no corredor de estantes ao lado, talvez para fugir de mim, eu chamei-o, sussurrando:
- Dave! – Este olhou para trás. – Hum… Posso falar contigo durante um segundo?
Aproximou-se lentamente, olhando-me com o nervosismo estampado na sua cara, como se estivesse a aproximar-se da Sarah, ou de outro colega que apenas lhe oferecesse um olhar de desdém.


- S-Sim?
- Não sei como te dizer isto… acredita. Hum… Dave… Tu tens alguma razão para ser assim tão… tímido?
- Desculpa, mas não estou a entender… - Soletrou o Dave.
- Tens alguma razão para ser tão tímido? Tão fechado no teu próprio mundo? Algo que te tenha marcado… no passado.


- N-Não… nada… - Negou, com os olhos nitidamente arregalados. – Agora, s-se não te importas, tenho de estudar. Devias fazer o mesmo, já que estás aqui.
- Sim, claro. Então… até amanhã… acho que já está na altura de ir… Tchau, Dave.
Virei costas, e quando me preparava para sair, lembrei-me de lhe dizer, com um tom persuasivo de voz.
- Se precisares de alguma coisa… de um braço amigo ou de apenas desabafar sobre… algo… podes contar comigo…


- O-Obrigado… - Agradeceu, um pouco confuso e impressionado.
Saí da escola, ciente que aquela ida à biblioteca não me tinha adiantado de nada. Estava também ciente, de que falar com o Dave era muito difícil. Ele era mais reservado do que eu pensava, e iria ser muito difícil fazer com que ele desabafasse com quem quer que fosse.
Quando cheguei a casa, já a minha avó estava a preparar o jantar. Pelos vistos o pai jáse tinha ido embora, e a conversa não tinha corrida da melhor forma, pela cara pálida e abalada da minha avó.
- Olá, querida! - Saudou-me a avó, assim que me viu transpor a porta de entrada.
- Olá, avó... - Respondi, pousando a mala no chão para aliviar o meu ombro.
- Então, filha, as aulas correram bem?
- Sim, correram... Avó... como é que foi a conversa com o pai?


Ela suspirou e arrastou-me até à sala de estar, fazendo-me sentar no sofá. Olhou-me com seriedade e disse:
- Ainda bem que falas nisso, Melody. O teu pai estava muito abalado, nem sequer parecia ele... mostrou-se arrependido e muito triste. Querida, não achas que chegou a hora de o perdoares?


Suspirei com as palavras da avó a martelarem-me o cérebro. Tinha pena dele, sabia que ele estava a sofrer pelo meu desaparecimento. Mas isso não inibia a réstia de raiva que ainda sentia dele.
- Então... o que é que me dizes de o perdoar?
- Oh 'vó, eu não sei.
- Querida, ele estava mesmo deprimido. Garanto-te que nunca o vi assim!
Suspirei, uma vez mais. Talvez ela até tivesse razão, mas a verdade era que não me sentia a vontade para desculpá-lo, pelo menos para já.
- Se bem que... - Começou a avó, calando-se de repente ao ver o meu ar curioso - Pode ser só impressão minha, mas pareceu-me que ele ainda esconde algo... quando lhe perguntei porque é que ele te tinha mentido... ele não me quis dizer.


- Como assim? - Perguntei, sentindo-me novamente irritada. Não conseguia aceitar que ele ainda escondia mais alguma coisa do que eu já tinha descoberto.
- Foi como te disse. Ele ficou alarmado e não me quis responder.
- E a avó não insistiu?
- Não, não achei que ficasse bem insistir. E ele já estava tão deprimido, coitado... tu devias mesmo perdoá-lo!
- Avó, eu não vou fazer isso! Ele é um mentiroso! - Exclamei, com desdém e frieza.


- Não digas isso, Melody! Sabes bem que ele fez isso para teu bem! - Exclamou a avó, autoritariamente.
- Isso não justifica nada, avó! Ele erra, mas só porque errou para meu bem tenho de o desculpar?! Comigo as coisas não funcionam assim! Ele vai pagar por aquilo que fez e não adianta de nada tentar demover a minha ideia! - Gritei, furiosa.
A avó suspirou, ligeiramente zangada. Ligou a televisão e ficou a olhar-me de soslaio, como se estivesse a espera que eu cedesse, e perdoasse o pai. Mas no que dependesse de mim, isso não ia acontecer.

5 Response to "Capítulo 74"

  • Diogo Says:

    Adorei mas o raio da carta deve ter sumido para niguem a ver ou falar/pensar nela! Uffa! Credo
    ADOREI COMEPLTAMENTE! Coitado do Dave, como deve ser dificl viver com um trauma tão grande como o dele! CONTINUA PFF=D


  • Desi Says:

    AMEI simplesmente!
    Quero mais mais mais mais e mais! Está mesmo lindo!
    Agr fiquei super ultra curioso por causa da carta... Quando é que a decobrem?
    Espero por isso... =)
    Continua! u______________u


  • Inês Says:

    Também fiquei muito curiosa àcerca da carta!!

    Pobre Dave... Ele deve sentir-se mesmo abalado por todas as coisas que aconteceram no seu passado, por isso ele ser assim tão reservado... :(

    A Melody parece estar mesmo decidida a não perdoar o pai... Podera... Mais uma vez ele omite a verdade!!! -.-
    Acho que já não teria nada a perder se o contasse... Afinal, como a Mel disse, ele que escondeu tanta coisa, que acabou por ser descoberta da pior forma, ainda vai esconder mais??? Humm... *pensadora*
    Não sei... Só se for uma coisa MESMO MUITO GRAVE!! (lol)

    Bom, só sei que ADOREI o capítulo (como sempre...)!! xD

    Quero o capitulo 75!!! xP


  • mmoedinhas Says:

    O Dave... O DAVE! Eu adoro-o! A cada capítulo que passa com ele fica cada vez mais adoravel e fofinho! Tambem tens aqui um ombro com quem contar, dave ^^ ADORO-O! Ele é tão... *derretida*

    O papelito deixa-me cada vez mais nervosa caraças! Quer dizer? Eles são cegos ou nao
    costumam olhar muitas vezes para o chão não? XD

    NÃO sinto pena do pai da Melody... (pronto so um bocadinho, mas um bocadinho muito pequenino!)


  • Mr.Lis Says:

    Coitado do pai dela...
    Eu também acho que ela o devia perdoar...

    Não sei o que dizer mais xD
    Adorei :D


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