Capítulo 63



O sorriso resplandecente da avó quase me fazia chorar. Era um sorriso quase forçado, para conter as lágrimas que devia estar a evitar a todo o custo naquele momento. Conseguia perceber que ela, como mãe, sofre mais do que ninguém na família. Deve ser terrível perder um filho… uma parte de nós. É uma perda que eu, se fosse mãe, não aguentaria. Mas como filha, também é difícil suportá-la.
Olhei em redor, e a saleta estava perfeitamente arrumada. Nem um único grão de pó nem um único objecto fora do sítio. Nas prateleiras ainda conseguia vislumbrar uma grande colecção de bonecas de porcelana, já envelhecidas, mas com um valor sentimental incalculável para a minha avó.
Apesar de não querer tocar no assunto, tive de perguntar à minha avó uma coisa que, desde que descobri a verdade, me atormentava.
- Avó, eu não queria estar a tocar no assunto mas… Porque é que a mãe morreu durante o parto? Estava debilitada? Doente?


A avó fechou o álbum de fotografias pesadamente e pousou-o na mesa de centro. Pigarreou, e começou a falar:
- Bem… Um mês antes de a tua mãe morrer, aconteceu um acidente quase fatal. Ela foi atropelada! Ela ia fazer as suas habituais compras, que fazia mesmo questão de ir, e, não se sabe porquê, ela ia muito distraída. Mal pôs um pé na estrada, para atravessar, foi atropelada por um carro que perdeu o controlo.



- Por pouco tu não morrias dentro da sua barriga, mas a partir desse dia a tua mãe ficou muito, muito fragilizada. O médico disse-nos que a partir daquele dia, a sua gravidez ia ser de alto risco. E desde aí ela foi ficando cada vez mais fraca, aguentava cada vez menos cada tarefa de casa, até que quando chegou o dia do parto, ela não resistiu. Ela salvou-te a vida… mas com um preço.


As lágrimas começaram a brotar dos olhos verde-escuros da minha avó, levando as mãos à cara com a sua profunda tristeza.
Foi nesse momento que eu não me pude conter, e tive de desabafar com ela sobre as visões e tudo o que me atormentou antes de descobrir toda a verdade. Podia ser um choque para a minha avó, mas não podia estar mais a guardar toda a agonia que sempre retive todos aqueles meses.
- Agora tudo faz sentido… - Disse, olhando em direcções incertas.


- O que é que faz sentido, querida?
Demorei a responder. Sabia que o que tinha para dizer não era fácil, e devia escolher bem as palavras para expressar tudo o que sentia, para pôr um fim às dúvidas e ao desespero. Foi então que eu comecei a falar.
- Avó… tudo o que aconteceu com a mãe… no passado… parte desses acontecimentos eu já sabia. – Notei uma intensa expressão atónita por parte da avó.
- Não estou a perceber…
- Avó… antes de descobrir a verdade. Nestes últimos meses, eu vi coisas que nunca me tinha passado pela cabeça ver! Coisas que, no fim, se encaixaram perfeitamente! Como se eu tivesse o pressentimento de que algo de terrível tinha acontecido no passado! A mãe… quando era pequena… eu via-a sempre diante de mim, sob a forma de uma espécie de sombra ténue… a criança que está nessa foto! A mãe! Eu via-a! E… e… eu ouvia as suas gargalhadas nos meus ouvidos constantemente!
A expressão atónita da avó transformou-se numa expressão impressionada.
- Um dia, quando estava no meu quarto, eu ouvi o som da travagem de um carro, e no dia seguinte, eu ia sendo atropelada! Acabei de saber que a mãe também foi atropelada, e foi isso que causou a sua morte no parto! No corredor da minha escola, eu vi uma espécie de sombra, como a criança, mas daquela vez era um rapaz e uma rapariga de mãos dadas… A mãe e o pai conheceram-se nesse mesmo corredor! Tudo se encaixa, avó! Agora tudo faz sentido, quando, naquela altura, eu não estava a perceber nada! Não percebia porque é que tinha aquelas alucinações!
A avó interrompeu-me, pondo-se mais perto de mim e pousando as suas mãos nas minhas:
- Melody… Tu não estavas maluca! Nem estavas a alucinar! Tu nem sabes o poço de recordações em que vives! Tu não fazes ideia que, em cada sítio que tu vais, tens um monte de recordações à tua espera! Não é por acaso que as mães falam com os seus bebés quando estão dentro da barriga! O teu coração dizia-te que te lembravas de tudo o que tu vias! Aquelas sombras… aquelas, como tu dizes, “visões” não te eram estranhas! Eram reais! Tu lembras-te delas! Só que estavam um pouco distantes na tua mente! Tão distantes… que se tornavam quase imperceptíveis.


- Então… tudo o que eu via… já me lembrava? Mas… apenas não sabia que me lembrava? É confuso…
- É normal que estejas confusa… estranho seria se não estivesses. Mas lembra-te disto: Aqueles que nos amam, nunca nos deixam! Permanecem sempre no nosso coração, e nós lembramo-nos dessas pessoas onde quer que vamos, em qualquer circunstância, nem que seja no fim das nossas vidas!
A avó deu-me um carinhoso beijo na testa, e, olhando para a minha t-shirt húmida e fria, disse, indignada:
- Ora… tu sabes em que altura do ano estamos?
- Huh…
- Vamos lá… vou-te arranjar uma camisola quente, e depois vou preparar um chá! Vá… vamos lá, minha menina… à minha frente!

7 Response to "Capítulo 63"

  • Inês Says:

    UAU!!!
    OMG, está absolutamente LINDO e espectacular!!!!!!!!!
    Tão FOFO (xD)

    Fiquei boquiaberta quando fiquei a saber que a mãe da Mel teve aquele acidente... Coitada :O

    Pobre Melody............

    Fiquei sem palavras ---------------------------
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

    Bom... ADOREI!!!!! Parabéns! :D



  • diogo Says:

    ADOREI! lindo mesmo! quem será que a atropelou ... um mistério que colocas-te possivelmente na cabeça dela. espero por mais!


  • Desi Says:

    Está brutal!
    Amei!
    Aquela deixa da Avó da Mel: "Aqueles que nos amam, nunca nos deixam! Permanecem sempre no nosso coração, e nós lembramo-nos dessas pessoas onde quer que vamos, em qualquer circunstância, nem que seja no fim das nossas vidas!" Fez-me lembrar da Rebecca! Afinal não sou o único a pensar nisto, e parece que nnão estou errado!
    Gémeosidade em acção! OMG!
    l0l
    Mas digo, está tudo brutal!
    Continua, please!

    PS: A Avó da Mel é mesmo fofa! *-*


  • Maines & Didi Says:

    Ohhh, a avó da Melody é tão simpática... AMEI, como amo todos os outros capitulos XD....

    Tive muita pena da Mãe da Melody, quando esta foi atropelada :(:(:(:( Tadinha :'(

    Tirando isto, foi muito bom ver que a Melody desabafou com a avó.... Nem sei o mais dizer, roubaram-me as palavras quando li este capítulo...

    Bem, a unica coisa que posso dizer é: AMEI, QUERO MAIS, CONTINUA... PLEASE XD


    Ass: didi


  • Mr.Lis Says:

    Adorei !!

    Gosto muito da avo dela =D

    Adorei !!
    Parabéns !!


  • Mariana Says:

    "Aqueles que nos amam, nunca nos deixam"
    Adorei, simplesmente:D


Postar um comentário